Morte Desapiedada


Olhando ó Céu vi uma luz cadente,
Fulgurosa estrela que se movia
E meus pensamentos de repente
Trouxeram-me tua imagem Maria.

E nessa luz rutilante
Julguei ver-te a acenar...
És tu minha visão constante
E não te posso alcançar.

Maria, minha Estrela Celeste
Que andas no Alto a brilhar.
Pelo muito que na terra sofreste
Deus, asas no céu te quis dar.

Estrela Maria era teu nome,
Nome que tanto adorava chamar.
Hoje a saudade me consome
Porque já não te posso escutar.

A morte veio, quis te levar
E eu não pude tua vida reter.
Quedou-me a solidão para abraçar
E o pranto que não posso conter.

A morte furtou-te a vida,
A mim arrebatou-me a alegria.
Para te contemplar querida
Deixou-me apenas tua fotografia.

Sempre e a cada momento,
Não posso cessar de recordar
O dia do nosso casamento
Quando te levei ao altar.

Em teu vestido de branco
Vi-te como um anjo Celestial!
E pelo teu coração tão franco
Deus logo te quis fazer imortal.

Também tenho bem gravado
Nossos romances e nossa paixão,
A tristeza e o júbilo chorado
Formando apenas um coração.

Fizemos ilusões como ninguém
Juntos, de olhos prostrados ao céu.
Até do nosso filho também
E tudo se foi, tudo morreu!...

Com a solidão me acosto no meu leito
Deparando com a dolência ao amanhecer.
Constante dor que devora meu peito
Do pouco que sou e nada sem ti quero ser...

Procuro dar ao destino uma razão
E nada em mim faz sentido.
Quantas linhas traçadas, tanta ilusão,
Num atroz acidente perdido.

Inconsciente por meses estiveste
Sem poder ver, ouvir ou falar.
Amor, quanto nas trevas sofreste
E eu sem poder teu sofrer afagar!

Hoje com brados de tristeza
E em choro de melancolia,
Também o eterno adeus á natureza
Peço, para ir juntar-me a ti Maria.

Hoje é ermo o meu caminho,
Sem ti não há verdor nem mimosas.
Sem ti é caminhar na terra sozinho
E minhas noites todas são invernosas.

Perdido pelas noites tenebrosas,
Meus braços são mendigos pobrezinhos.
Estendidos, aspirando tuas mãos cariciosas,
Tuas mãos que eram ternas, plenas de carinhos.

Esta vida é pó, cinza, não é nada
E tudo o que foi se esvai num segundo...
Como pode a morte ser tão desapiedada
Para me arrebatar o que mais queria neste mundo?

Morte, leve como as penas de ave,
Ligeira como um raio de luz .
Morte cruel que nada tens de suave,
Abutre que nem perdoas-te a Jesus.

Sei que sem ti a vida não existe
E todos temos que a terra deixar.
Porque fizeste de mim um lago triste
Oh morte, sem me dar a vida a desfrutar?

A vida foi-nos injusta meu amor,
Com quanto nos surpreendeu:
Vestiu-nos com o sabor amargo da dor,
Pérfida ao muito que nos prometeu...

Querida, quando no azul Celeste
Vejo uma estrela esmorecida,
Pressinto o beijo que nunca me deste
Antes da tua final despedida.

Vejo-te sempre no azul dos Céus
Em cada nuvem d'oiro que flutua.
Meus sonhos continuam sendo teus,
Minha boca sempre esperando p'la tua.

Mas quando do céu estrelado
Caírem lagrimas de cristal sem fim,
São o pranto que tenho chorado
Por te terem da terra levado sem mim.

Se a sós triste pela noite escura,
Para que viver se não posso viver contigo?
Suplicante, gemo á tua sepultura
Para que a morte também me leve consigo.

Calaram-se os poetas, tristemente...
Dos versos que eram nossos, nosso sonhar.
E é desde então que choro amargamente
Procurando no céu o teu lindo olhar.

Este triste poema,
É a historia, é do lema
Dum grande amigo em dor
Com alma desfeita em plangor.
A morte arrebatou tudo á sua vida
Levando sua companheira querida.

Inspirei-o com profunda tristeza,
Querendo mostrar-lhe a certeza
Que também no meu coração,
Levo uma magoada paixão
E, também pergunto à morte
Porque crueldade tão forte.

Este mundo é a bruma vaga de um sonho
E nem tudo o que é riso é risonho
Mas a vida deve seguir amigo.
Abraça-a, leva-a contigo,
Porque para protege-la
Sempre terás tua Maria Estrela.


Autor: Denis Cavadas