Amor de Alvor

 

Naquela manha cedinho de Janeiro

De estrelas brilhando ainda com fulgor,

Aonde a lua do alvor era um luzeiro,

Eu contemplava o mar e seu esplendor.

 

Olho, fixo uma estrela que lá no Alto está

Junto à lua que brilha no azul delido,

Branda luz que levaria toda uma vida a chegar cá

E eu agarrá-la querer, almejo sem sentido!

 

 O céu se escondia por detrás de uma imensidão

Que até a onde, a que distancia me perguntava.

Estaria na vastidão do Alem o resgate à minha solidão

Ou seria sombra de uma ilusão que me alentava?

 

Enquanto na branca e macia areia sentado

As serenas vagas vinham meus pés afagar,

De repente do meu meditar fui abalado...

Uma afável voz veio-me do silêncio despertar:

 

“Olá! Vejo que em tua alma grande tristeza mora!...”

Olhei... pés na água, frente a mim estava...

Quem eras tu que caminhavas com a aurora,

Formosa como a lua e que do alvor despontava?

 

As juntas de tuas coxas, relíquias sumptuosas,

Jóias inspiradas e por mão de mestre fabricadas.

Suave trigueira de faces bem Formosas,

Cor de morena pelos raios do sol mudadas.

 

“Viviana é meu nome, qual é o teu?”

Fitei-a... visualizei saciados desejos...

Pobre poeta... um sonhador, - respondi eu.

Sonhando por inexistentes beijos.

 

“Posso sentar-me? Tuas penas são as minhas iguais.

A vida é um constante pensamento...

Venho do Fascination alem atracado no cais.

 Deus, encontrei alguém com o mesmo meu sofrimento.” 

 

Saudamo-nos e, os dois ficamos sentados

Revelando-nos sonhos nunca alcançados,

Dizendo-nos quais nossas ardentes aspirações,

Abrindo um ao outro nossos corações.

E como se nos conhecesse-mos de há muitos anos,

De cabeças chegadas deploramos nossos enganos.

 

Despertamos num sobressalto:

O sol já se via bem alto

E o mar tinha recuado.

Lembrando-nos que muito tínhamos falado,

Trocamos o olhar e em simultâneo sorrimos.

Já de mãos dadas, pela praia os dois partimos

Alegres, talvez à procura de um romance

Que o destino tinha posto ao nosso alcance.

 

Morena, porque o sol te deu a cor.

Formosíssima entre as mulheres quão bela!

Meu peito inundado de amor

Por ti, luz descida de uma estrela.

 

A tua face leva lindeza de mácula, formosa.

Soa afável, teu doce falar aos meus ouvidos.

E porque tua voz é doce e tua face graciosa,

Na essência de minha alma ouvem-se ternos gemidos.

 

Foste flor dos campos, açucena dos vales,

Abordando na praia desta encantada ilha.

Trouxeste a fragrância o bálsamo dos meus males,

Foste fonte de água viva brotada da divina maravilha.

 

Quão airosa és, como o são teus passos!

Teus lábios favo que destila doçura.

Oh, quanto quisera apertar-te em meus braços,

E beija-los, beija-los com muita ternura.

 

Quem eras tu que apareces-te do alvor matutino

Com uma varinha de aromas e minha alma seduzindo?

Quem és tu, porque te quis trazer o destino?

Tu que com sorriso meigo me estavas novas portas abrindo... 

 

Caminhando ia-mos pela areia húmida e fina

Banhando-nos os pés cada vaga cristalina.

Paramos, olhamos a vastidão do mar.

Trocamos com ternura o nosso olhar

E sem um som ou uma palavra dizer,

Os dois deliciados pelo mesmo lazer,

 

Nossas bocas foram-se procurando.

Deixamos nossos lábios docemente se poisando

Cedendo a alma um êxtase de ternura:

Oh! Tamanho deleite quanta ventura!

 

Do que ia ao redor nada nos importava,

Estava-mos nos dando o que o coração buscava

Brotado do nasceiro inexaurível:

O zelo do amor que e inflexível.

E quão aprazível e delicioso era!

Flor radiante de uma prometida primavera.

Para minhas penas o afago trazido pelo alvor:

Doce e formosa amiga, estou desfalecendo de amor...

 

Prosseguimos, um ao outro cingidos de braço.

Nossos pés não sentiam cansaço

E nem os estômagos nos pediam comida.

Tínhamos encontrado o bálsamo de nossa ferida

Que era o calor que nos vibrava no peito

E nos deixava esquecer o amor de ontem e desfeito.

 

Experiência, é vida com asas e poder voar.

Amar é sem medo ao mundo poder dizer...

O arrojo de levantar as mãos e junto agarrar

Algo que se temia jamais alcançar ou obter.

 

O amor é um conjunto de notas musicais

Que o coração transforma em melodia.

Tu, orvalho do céu desembarcado num cais,

Trouxeste o lenimento a minha melancolia.

 

Sei que não somos os geradores da luz;

Somos apenas raios desse grande fulgor.

Obrigado, mil vezes obrigado meu bom Jesus

Pela dadiva tua deste grande amor.

 

O dia passou, veio o sol pôr.

Tudo era beleza ao nosso redor,

E sem a nada esconder os nossos desejos

Queimávamo-nos os lábios com nossos mil beijos.

A noite caiu, fizeste-te ainda mais bela!

Em teu vestido luzia como estrela.

Ornava teu pescoço um precioso colar

Que admirei e elogiei para te beijar.

Corremos pela noite fora como crianças

Alimentando em nós tantas esperanças...

O desejo era fonte de poder que tudo superava,

O impulso criativo que tudo mudava...

 

Se o dia pareceu-nos curto, a noite mais ainda.

Mas em nossos seres, esta uma felicidade infinda,

Gritava, gritava, já não aguento mais...

E os dois, de amor delirantes voltamos ao cais.

O resto da noite...para que vos contar...

Amamo-nos tanto como ninguém pode amar...

 

O sol ia já bem alto quando enfim despertamos.

Em cima do mar nós nos encontrávamos,

Nossos corpos estavam despidos.

De corações vibrantes estávamos bem cingidos

Por uma janelinha olhando e contemplando o mar,

O mar que ontem nos juntou e amanha nos iria separar.

Mas para que nos deixar entristecer

Se temos ainda hoje e amanha para viver?

Se temos toda uma vida para desfrutar

E tantos, tantos sonhos para realizar.

 

Fizeste de mim semente de fim de Inverno

Sabendo que a primavera em breve iria florir

Libertaste-me de um passado que foi inferno

E que agora quero superar com um novo porvir.

 

Foste a mais bela expressão que recebi da vida,

Foste demonstração do desejo de encontrar o mundo.

Agora que o encontrei só quero te pedir querida

Que comigo estejas para viver este amor jucundo.

 

Comemos, bailamos, brincamos todo o dia.

Caminhamos de mãos dadas, abraçados, choramos de alegria.

Ao pôr do sol deitamos aos céus um brado de clamor:

Pedimos a deus que a chama do nosso jurado amor,

Permanecesse luz no Alem, eterno clarão no mar,

Que nunca, nunca se fosse por nada apagar.

 

O sol se desvaneceu, a noite suavemente regressou.

A lua de novo o firmamento enfeitou

Vindo também milhões de estrelas o céu adornar.

 A noite era bela, amena, de argênteo luar,

Mas, tua beleza era o que mais me encantava;

Perdão meu deus se a ela também a adorava.

 

Da noite que decorria nos prometemos gozar... gozar...

E eu não cessava de teu lindo corpo admirar:

Distinto, primoroso, ornado de ceda de branco e anil

Meus deus, como eras formosa, graciosa e subtil!

Senhor por este amor vela, dá-nos tua bênção do céu

Não deixes que desvaneça como o outro esvaeceu.

 

E ao meu quarto fomos de amor inundados.

De enlevo beijei teus lábios enamorados,

E lentamente de tua roupa te despi

Deparando de um esplendor como jamais vi.

Viana, teu nome foi óleo límpido derramado

Sob minha cabeça, resgate de um pranto chorado...

Teus lábios de lírio que destilam exótico perfume,

Vieram calar em mim todo o meu queixume.

Teus olhos de pomba branca, fulgores cintilantes.

Teus seios, dois cachos de uvas ofertantes.

Tuas pernas sob bases de oiro sustentas,

Colunas de fino mármore me amentas.    

O teu ventre delicado e de marfim revestido

Desafiava-me a ver o que tinha escondido.

Teus cabelos, de tuas faces o nácar,

Tudo era beleza para sempre desejar.

 

Como era belo ver-te e admirar-te,

E apenas com o brilho das estrelas beijar-te

Tendo a nossa volta, amor, a lua e o luar

E o enternecimento da doce canção do mar!

E porque as substâncias do teu corpo todas eram preciosas,

Quisera deitar-te agora num leito alcatifado de rosas.

 

Oh! Quanto me enleva teus exales de amante

Confundidos no sussurro do mar do bater constante.

Adoro-te anjo matutino pela paz que à terra trouxeste,

Amo-te e quero-te pela doce ternura que me deste.

Minha alma e meu ser são inteiros teus

Porque te amo e desejo sempre nos braços meus.

 

Quanto mais o tempo passa

Mais feliz contigo sou.

E não haverá quem desfaça

O laço que nos enlaçou.

 

Conhecer-te foi minha sorte,

Amar-te foi um prazer.

Amar-te-ei ate a morte

E no Alem serás de minha alma o lazer.

 

Tu, sereno orvalho que veio afagar

Minha solidão com carinho.

Como o rio encontra o mar

Em ti encontrei meu caminho...

 

Chegou a hora por nós tão temida.

Aquele era o momento da nossa despedida,

Tu te irias por mar e eu logo após pelo ar.

Mas, dentro de nós, sabíamos que iria ficar

Muitos desejos e uma saudade imensa

Da veemência que ardia em nós intensa,

Os desejos de amar que em nos se abriram.

 

Dois apitos de manobra, do silêncio nos sacudiram.

Tinha chegado o momento do teu navio partir...

Queria beijar-te e mais uma vez sentir

Teu coração palpitante, junto ao meu coração.

Até breve, - dissestes - mais um beijo para consolação...

E ali imóvel fiquei vendo-te pelas escadas subir,

Vendo tanta sensibilidade, tanto amor partir.

 

Viam-se mãos acenando e lenços.

Ouvem-se três sonidos intensos

E entre a multidão meus olhos te procuravam.

E vi-te, vi teus braços que me acenavam,

Vi teus lábios que já com saudade me sorriam.

Vi lágrimas que também de teus olhos corriam

E que limpavas com um lenço que te havia comprado

E eu, com um semelhante que me havias dado.

Aquela sumptuosidade do mar ia-se afastando

Enquanto nossos lenços sempre nos acenando.

Em nós, ardia um desejo imenso de ter asas e voar,

Porque o desejo é a fonte do que ansiamos alcançar.

 

Tenho em mim este desejo de tudo saber o que acontece

Debaixo do sol, da lua e das estrelas.

Quero contigo viver cada experiência que enternece

E que se tornam mais belas não tendo medo a conhece-las.

 

Quero ser para ti o homem que pensas que sou

Com toda a forca de alma e coração.

O que hoje somos, das penas do ontem brotou:

Dois loucos de amor delirantes pela emoção.

 

Lá no Alto existe uma estrela que nos guia

E nos iluminará por toda a nossa vida.

Em breve virá, chegar-nos á o dia

Em que tu e eu, felizes para sempre seremos querida.

 

Para amar-te apenas necessitarei a vida.

Amar-te-ei mesmo quando na terra já não respirar.

E se por um momento me fores esquecida

Será porque as estrelas no céu deixarão de brilhar.

 

 

     Ainda há poucas horas até breve nos dissemos, com nossos lábios, com nossas bocas, com nossos braços, com mãos e lenços acenando e já uma eternidade me parece querida Viviana. Todas estas horas de tua ausência não cessei de pensar em ti, mas, como  disseste, da tua sensibilidade e transparência da alma, esta vida é um longo pensamento. Rogo a deus do mais profundo que tenha sido deveras um ate breve e não um adeus, porque, um adeus é para sempre e eu não o quero nem imaginar, porque derreteria minha alma. Sei que neste momento teu coração está triste como o meu e que do íntimo de nossas almas sai um grito de clamor: que enfim encontramos o amor e que paixonadamente nos amamos.

 

      Viviana, estes dois dias que passamos juntos foram magníficos, quando falávamos do passado tornávamos mais real o presente e o futuro. Por anos tive o pavor de olhar aquilo que vivi, um medo causado pela dor de outro amor e falta de objectividade e franqueza comigo mesmo. Sofri em silêncio e o silêncio faz-nos sofrer ainda mais dolorosamente. Mas tu chegaste como Anjo enviado dos céus, dando-me a coragem de olhar e abrir meu coração e sou feliz, o mais feliz dos homens deste Universo.

 

      Vou sentado a uma janela do avião e cada minuto deixo meu olhar perder-se na vastidão do horizonte para ver se vejo o Fascination , que tonto sou, não te parece? Como poderia eu o ver ou distinguir a quilómetros de altitude! Mas, assim são as emoções do amor. Amanha estarás em Panamá aonde atravessaras o canal, eu estarei mais ao norte aonde agora faz frio mas meu coração estará ardente de amor por ti. Estou escrevendo um poema sobre nós, dos dias e das noites maravilhosas que passamos e vivemos juntos. Não sou poeta, apenas um homem de alma emocionada e coração apaixonado. Espero que o possa concluir para que à tua chegada possa lá estar no teu correio junto a esta carta.

 

    Espero ansiosamente por noticias tuas e por escutar tua amena voz, mas mais anseio e com veemência, voltar a ver-te, voltar a reter-te em meus braços, beijar teus lábios ternos cor de fita de escarlate. Os 700 quilómetros que nos separara a distancia não são tão difíceis de percorrer. O amor supera todas as forcas e dificuldades. O amor é consciente de si mesmo, é um impulso criativo. Tudo o que foi vivido por nós, tenho a firme esperança que jamais se perdera. E, a mim nada mais me regozijaria do que te estender meus braços à tua chegada e receber-te com meu coração e minha boca que estão profundamente de ti enamorados.    

  

 

Se poeta sou não o sei;

Melhor vós o podereis dizer.

Se digo isto ser do que escutei,

Também do vivido poderia ser.

 

Denis Cavadas     Jan. - 03